Santa Joana d’Arc (IV) “Carlos VII dá ouvidos a Joana”

Com convicção e coragem, Joana empreende a árdua viagem rumo a Chinon, que se prolongará por onze dias. Ela sabe que recebeu uma missão de Deus, por isso não teme ser detida por nada nem por ninguém. Além disso, encoraja constantemente os seus acompanhantes. Durante o processo de reabilitação da santa, dois deles darão testemunho desta viagem.

O cavaleiro Bertrand de Poulengy relata:

«Foi uma jornada emocionante, mas Joana nos encorajava dizendo para não termos medo, pois o nobre herdeiro nos receberia amavelmente quando chegássemos a Chinon. Garanto-vos que as suas palavras me inflamaram, pois ela realmente me parecia uma enviada de Deus. Nunca pude ver nela o menor mal. Era tão boa quanto uma santa […]. Assim, chegamos juntos e sem obstáculos a Chinon, onde se encontrava o rei, que na época ainda era Delfim (herdeiro do trono). Lá, apresentamos a Donzela aos nobres e à comitiva real.»

Outro dos cavaleiros que a acompanharam, Jean de Metz, testemunhou:

«Por medo dos ingleses e dos borgonheses, que ocupavam os territórios circundantes, cavalgávamos apenas à noite e demoramos onze dias para completar o trajeto. Durante o caminho, perguntei-lhe se realmente faria o que tinha dito. Ela sempre respondia: “Não temas nada, pois tenho a missão de realizá-lo e os meus santos me dizem o que devo fazer”.

Cada noite, Bertrand e eu dormíamos ao seu lado. Ela deitava-se perto de mim, vestida com um gibão e calças. Incutiu-me tal respeito que eu nunca teria ousado desejá-la. Juro que nunca senti nenhum desejo nem luxúria por ela.

Eu acreditava nas palavras da Donzela. Entusiasmavam-me as suas palavras e o seu amor por Deus. Acreditava que ela tinha sido enviada por Deus: nunca praguejava, gostava de ir à missa e, quando jurava, benzia-se. Assim a levamos perante o rei em Chinon, com o maior sigilo possível.»

O rei recebeu Joana e falou a sós com ela. Ficou muito impressionado com a sua presença e quis certificar-se de que ela realmente havia sido enviada por Deus. A Donzela disse-lhe muitas coisas que não poderia saber por nenhuma fonte humana e confirmou-lhe que ele era o rei legítimo. Assim, livrou-o daquela dúvida que o afligia profundamente. Embora, a nível pessoal, Carlos VII já estivesse convencido de que Joana fora enviada por Deus em seu auxílio, ele queria obter uma confirmação por parte da Igreja.

O cavaleiro Raoul de Gaucourt relatou, durante o processo de reabilitação, como foi a chegada de Joana à corte real:

«Eu estava em Chinon quando a donzela chegou lá e encontrava-me na corte quando ela se apresentou perante sua Majestade Real. Na sua humildade e simplicidade, era uma simples pastora. Pude ouvir as palavras que dirigiu ao Delfim: “Ilustre senhor Delfim, fui enviada por Deus para trazer ajuda a Vós e ao reino da França”.»

Também relatou que o rei ordenou que Joana fosse examinada por clérigos, prelados e doutores para averiguar se devia e podia acreditar nas suas palavras. Assim aconteceu: o interrogatório por parte do clero durou mais de três semanas, tanto em Poitiers como em Chinon. Uma vez que os clérigos a submeteram às provas pertinentes, certificaram finalmente que não havia nada de maligno nela nem nas suas palavras. Após diversos interrogatórios, pediu-se a Joana um sinal para que acreditassem nela. Ela respondeu: «O sinal que vos darei é o levantamento do cerco de Orléans».

Joana conseguira convencer tanto o rei quanto os inquisidores eclesiásticos, que viram que aquela jovem não era de forma alguma presunçosa. As suas respostas eram simples e claras, e o seu testemunho de vida, sincero e convincente para todos aqueles que tinham o coração aberto. A partir de então, muitas pessoas consideravam a chegada da Donzela como um sinal de Deus e de esperança.

Detenhamo-nos um momento neste ponto.

Não só é comovente ver a intervenção tão extraordinária de Deus na desastrosa situação da França, escolhendo uma mulher jovem e simples para mudar a sua sorte, mas também o é a doçura e a determinação da Donzela para cumprir a Sua vontade. Também é comovente ver a fé das pessoas daquela época, dispostas a ouvir uma mensageira de Deus. Inclusive os inquisidores eclesiásticos que a interrogaram em Poitiers e Chinon terminaram por abrir-lhe o caminho para que pudesse cumprir a sua missão.

Joana tinha urgência em partir para Orléans, e tinha motivos de sobra para isso. Orléans continuava a ser um obstáculo para a expansão do domínio inglês na França. Estava claro que, se esta cidade caísse, seria quase impossível defender os territórios do sul. As tropas inglesas já tinham iniciado o cerco de Orléans e construído as fortificações necessárias. Cada vez era mais difícil abastecer a cidade, o que afetava o estado de ânimo da população.

No entanto, Deus interveio bem a tempo e de uma maneira que só poderia provir d’Ele. Enviou a Sua mensageira, Joana, da região da Lorena. Naquela hora, o rei ouviu a sua enviada e o plano de Deus pôde cumprir-se.

A notícia da iminente chegada da Donzela a Orléans já se havia antecipado, por isso a população da cidade a esperava como a um anjo salvador: a esperança ressurgia!

E Joana? Não via a hora de partir para libertar Orléans!

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