O que havia acontecido com a heroica Joana d’Arc, que se havia mantido firme em tantas provações e nunca havia duvidado de sua missão?
Pensemos, neste contexto, em São Pedro: por acaso ele não havia demonstrado repetidas vezes o seu amor a Jesus? Não havia deixado tudo para segui-lo (Mt 19,27)? Não havia assegurado que estava disposto a morrer por Ele (Mt 26,35)? Mas, o que aconteceu? Já sabemos: no momento do perigo, negou o Senhor três vezes e depois chorou amargamente (Lc 22,55-62).
E o que aconteceu com Joana d’Arc após a sua retratação?
O bispo Cauchon foi à sua prisão alguns dias depois, acompanhado de outros prelados. Perguntou-lhe se, desde quinta-feira, o dia em que se havia retratado, havia voltado a ouvir as vozes de suas santas. Joana respondeu afirmativamente e exclamou:
«Deus me mostrou, através de Santa Catarina e Santa Margarida, o grande pesar da minha traição, na qual incorri ao me retratar. Desde quinta-feira, minhas vozes me haviam predito o que eu ia fazer e o fiz nesse mesmo dia. Enquanto estava no cadafalso, diziam-me para responder destemidamente ao pregador. Mas eu considero este pregador falso, pois me acusou de coisas que não cometi. Se eu dissesse que Deus não me enviou, condenar-me-ia a mim mesma. A verdade é que Deus me enviou. Desde quinta-feira, minhas vozes me disseram que eu havia cometido um grande erro ao confessar que não agi corretamente. Foi o medo do fogo que me levou a dizê-lo».
Aqui voltamos a nos encontrar com a Joana d’Arc que conhecemos. Suas santas a conduzem a reconhecer seus atos e ela se arrepende. Assim como São Pedro, havia renegado movido pelo medo.
O bispo quis lembrá-la de que, em sua retratação, havia confessado ter alardeado falsamente que as santas lhe haviam aparecido. No entanto, Joana, com a ajuda de suas vozes, estava decidida a permanecer firme em sua missão e respondeu ao bispo:
«Não entendi assim. Não pretendia renegar minhas aparições, ou seja, Santa Catarina e Santa Margarida. Tudo o que fiz foi por medo da fogueira. Minha retratação foi contrária à verdade. Prefiro cumprir minha penitência de uma vez e morrer a continuar suportando os sofrimentos da prisão. Nunca fiz nada contra Deus nem contra a fé, embora me tenhais obrigado a me retratar. Não entendi nada do que constava na ata de retratação. Não tinha intenção de me retratar de nada, exceto se assim agradasse a Deus».
Com estas palavras, Joana havia selado sua sentença de morte. No dia seguinte, o tribunal se reuniu; o bispo Cauchon relatou os fatos e pediu a opinião dos presentes. Estes a qualificaram como herege reincidente que merecia a morte.
Em 30 de maio de 1431, na praça do mercado de Rouen, a autoridade eclesiástica entregou Joana d’Arc ao poder civil, que se encarregou de executar a sentença de morte. A Donzela de Orléans foi queimada na fogueira como bruxa e herege. Os ingleses haviam alcançado seu objetivo e o tribunal eclesiástico de Rouen lhes havia aberto o caminho.
E Joana d’Arc?
Ela havia conseguido sua maior vitória. Ao não ter podido levar a cabo fisicamente sua missão de libertar a França até o fim, consumou-a mediante o santo martírio. Sua retratação momentânea não mancha sua imagem, já que se arrependeu e voltou a confessar a verdade diante de seus acusadores, anulando assim sua retratação. Agora dava testemunho da verdade, sabendo claramente que a esperava o martírio da morte na fogueira, algo que sempre havia temido.
Há indícios de que, durante um tempo, talvez ainda acalentasse a esperança de ser libertada da prisão. Além disso, entendia que o martírio que lhe havia sido anunciado por suas santas estava ligado ao sofrimento da prisão. No entanto, uma vez anulada sua retratação, sabia perfeitamente o que a esperava. Isto faz com que sua confissão da veracidade de sua missão seja ainda mais valiosa. A experiência de sua fraqueza e confusão diante da morte iminente a terá mantido humilde e a terá levado a se apegar ainda mais a Deus. E Ele veio em seu auxílio!
Os santos lhe haviam dito que seria libertada mediante uma grande vitória. Essa vitória se apresentava a ela agora e a conduzia através das chamas.
Inclinamo-nos, pois, diante de uma santa que foi decisiva para mudar o destino de sua amada pátria, a França, e que esteve disposta a dar a vida por isso. Deus foi glorificado através de sua vida e de sua morte. Para a glória de Deus e a honra da santa, convém apresentar sua missão sob a luz adequada, na medida em que nos seja concedida a graça para isso. Esse tem sido o meu propósito nesta série de meditações. Ao honrar os santos, damos glória a Deus, que os capacitou a cumprir sua missão neste mundo.
Em 7 de julho de 1456, a Igreja declarou nulo o infame processo que havia levado à condenação de Joana d’Arc. Em 16 de maio de 1920 foi canonizada pelo papa Bento XV.
Após a reconquista francesa de Bordéus em 1453, terminou a Guerra dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra. É indiscutível que a intervenção de Joana d’Arc foi determinante para a subsequente vitória da França. Amanhã concluiremos a série «Em honra a Joana d’Arc» com uma reflexão final.
